HOJE ELA É MORTA, MAS DEVE SER SÓ HOJE ...
A morte não é minha amiga, sempre soube disso. Ela tenta seduzir, insinuando que não irá doer, mas ela mente. Dor é aviso de quebra, de separação, que algo que estava bem junto há de se separar, principalmente se não se der atenção, quando não se dá conta.. Que bom que a dor avisa; mas também não pergunto nada, não a procuro, ela que vem a mim, se adianta e conta o que pode vir a separar. A dor conta o que tem de contar, de um jeito meio silencioso, mas é a gente quem grita, a quem ela dirige sua palavra. Eu grito. Grito de raiva, grito de tédio, grito de dor e grito de lamento. Grito por impotência, inclusive a impotência do cálculo ao planejar fazer o que pensava poder fazer, mas não posso ... O que de fato posso fazer? ... Chorar? Choro de raiva, de tédio, de dor e por lamento; mas também choro de rir, choro por lembrar, choro por ser gente. Não sei bem o que é ser gente, mas acredito ser. Melhor acreditar estar gente, pois a possibilidade de morte separa a...