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HÁ MUITOS MAIS MISTÉRIOS ENTRE O CÉU E A TERRA ...

Hamlet sabia do que estava falando ao dizer sobre o que a filosofia vã não pode saber, creio que também ele sabia a quem se dirigia. Quanto mais procuro, mais há o que buscar. Quanto mais sei, mais tem para saber, e o que sabia não se fixa, parte se perde no esquecimento.  Há as possibilidades de pensar-se de dentro ou fora de si. Isso não quer dizer que se possa divorciar-se do mim-mesmo para iniciar uma análise mediante separação. O que posso é ver-me no outro, como em um espelho, no que está próximo, mas que não está em mim. Mas, não falo de Narciso, nem do fim que o alcançou. Identificar-se somente consigo só pode dar nesse fim, pois quem que é mortal que possa ser fonte de luz. Isso é típico da arrogância. Quanto a isso, com quem (ou o que) nos identificamos pode nos dar muitas pistas. Reflexos e difrações fazem parte do processo. Vou falar bem baixinho: - " Há luzes que não são luzes, só se parecem com elas ". Se pensarmos abstrato, o que não é luz? Falo das coi...

A EFEMERIDADE DO QUE PODE SER OLHADO

O que é despedir-se se não a consciência do que não tem ainda lugar permanente ... Quando o que aparece deixa de ser olhado pode ser esquecido ou perpetuar uma imagem vista que se esmaece, mesmo com a insistência da memória. De que adianta apegar-se ao que aparece, porque pode desaparecer em um soluço. As aparências mudam; quando mudam muito, se estranha, e quando não mudam, se enjoa. Pele é proteção, não existe por causa de nada, tem seu motivo; quando deixa de existir pode ser por violência, que dali foi arrancada, ou por falta de serventia e se retira. Pele é feita de pó, e o pó, em grande parte, feito de pele. Será que o que deixa de existir seria somente por violência ou por falta de serventia? ... Não sei ... Aprendi desde madrugada que corpo é estada, não é permanência.  Um corpo atrai, mas não fixa para sempre; não consegue atrair para ficar, um dia se cansa e vai, se espalha. Um corpo que dói merece atenção, para não se por em fragmentos, nem ir embora sem que se...

UM CONCEITO VIVO: A BELEZA DA ALMA

Hegel disse ser o retraimento a beleza da alma.  Ao ler por primeiro, achei até que poderia ser; depois pensei melhor e não sei se o retraimento seja o motivo de tornar a alma bela. Talvez Balzac concordasse com Hegel, mas confesso que eu não. Falemos primeiro da superfície da ilusão para depois nos referirmos ao oceano da alma.  Nem precisam muitas palavras, aprendi com uma criança, por estes dias, a responder como se deve quando se é intimidado.  Essa criança era uma menina linda que deveria ter uns 6 anos; uma outra criança, que parecia ser seu amigo, lhe disse: - Você é feia, e não brinco com pessoas feias. No que, calma e educadamente, ela respondeu enquanto fazia ondinhas na água com o dedinho indicador: - Todas as pessoas são bonitas. Uau! Hegel deveria tê-la conhecido ... Pena que o tempo não deixa. Tive sorte: lugar certo, hora certa, palavras exatas. Será que uma alma retraída poderia tê-la ouvido?  Penso que todos sabem que escutar é bem diferen...

A LÓGICA DA ALTERIDADE

Desde Aristóteles os tijolos de construção para a lógica foram os princípios de Identidade, Não-contradição e o Terceiro excluído.  Sabemos que pode haver o indeterminado, a dialética aponta para a contradição intrínseca das coisas, e a identidade poderia ser ampliada para a alteridade, ao invés de ser idêntico a si, ser idêntico a outro, em processo, com inserção do tempo. Ser idêntico a si mesmo não parece ser seguro, tampouco traz unidade, ao menos quando falamos de pessoas. Unidade é o que garante um sentido, pois, se não houver um sentido, uma ligação de coisas em relação, que significado pode ter? Seria um embaralhado de múltiplos espalhados por aí. Pergunta retórica:  De onde vem o comando para que os múltiplos se unam em uma unidade? Pleonasmo ... Eu sei ... Amor, entrega e confiança têm a ver com unidade. Interessante que amor tem a ver com sentimento, entrega com ação e confiança com razões. Mas, o maior deles é o amor. Razão e ação estão contidos no sentime...

IDENTIDADE? ... IDÊNTICO A QUEM? ...

Identidade é de natureza axiomática; não por menos é tomada como um dos princípios da lógica, talvez o mais fundamental. Originariamente "axioma" significa dignidade ou valor.  Identidade tem mesmo dignidade e valor.  Digno e com valor; idêntico a quem? Indentitas, Identity, Identité, Identität, Identità ... Não altera muito. Identidade como unidade de substância que une. Une?  Quem são os que se unem ... Q... Qu ... Que ... Quem ... Como se pode ser um? Indivíduo me parece um monismo de categoria fantasiosa, uma invenção. Na identidade no mínimo tem dois. O indivíduo é o que não se divide? Se é assim, me parece ser mesmo como disse.  Acredito em um  eu  bem tênue, que só é  eu  por um tempo, depois se divide, depois fica contido no tudo.  O Tudo tem poder para se espalhar e tornar a juntar, tem poder para morrer e tomar sua vida de volta. É tão poderoso que não se faz ver para deixar que o  eu  seja, sem que saiba...

NOTA SOBRE A ESTÉTICA DA INTIMIDADE

Por certo que intimidade e afinidade têm parentesco. A intimidade é para poucos, para os que pensam parecido, pois tem a ver com mostrar de si, e se o que ouve não se interessa, por que haveria de se mostrar? Parecem espalhados os que têm afinidades. O vento os soprou pra cantos diferentes. Também temos de considerar que para falar de si tem de se sentir bem confortável, à vontade, relaxado. Em ambiente que cheira à exigência ou crítica como se haveria de relaxar? Melhor tapar as narinas e se aquietar, fazendo da boca não o revelar, mas lugar de respiro. A capacidade de falar de si tem a ver com a doçura de expressar sem medo o que se sente: se agraciado ou agredido; sem que a culpa seja imposta, sem cobrar, pois, como cobrar o que não sabe nem o que deve? Só se sabe o que se deve quando o alheio chora seu dono ... Para os que não vestem a culpa, quanto maior a afinidade, maior o poder de conexão, maior o encaixe. E quando o encaixe se ajusta, são poucas, se não só uma, as ...

PALAVRAS OCUPAM ESPAÇO?

Não tenho tido palavras nos lábios por este tempo. Elas estão cada dia mais quietinhas, sem nem que o respiro se possa ouvir. Creio que a sensação é de que tudo que era para ser dito já foi, e o que é, já foi também. No íntimo, as letras ainda estão a tecer o pensar, porém, de forma embaralhada, ou de maneira cifrada, que não me deixa entender.  Parece ser um processo em que, mesmo que uma palavra escape, ela não se ancora à outra. Parece estranho que as letras não se comuniquem, nem se deem as mãos; como também não formar frases, não gerar entendimento; devem estar meditando em solidão. Que estranho estado esse, pois a muito que aprendi que letras matam ou fazem viver; mas sobre as que não se relacionam, essas ainda não conhecia. E que espaço as palavras, frases, versos, textos, longos escritos ocupam? Se não estiverem nos suportes de papel e nos de luz, para onde vão? Não é uma pergunta razoável? Para onde será que elas vão quando se calam? Para as montanhas, como os eremi...