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GRATIDÃO

Se em algum tempo foi comum ser grato, esse tempo já não está mais conosco. Os gratos são raros. E por onde anda a gratidão? Procurei nas esquinas e não achei. Andei pelos pátios e não encontrei. Procurei pelas casas e quase não vi. Passei a buscá-la nos lugares reservados. Bastante provável que gratidão não se encontre em qualquer lugar, mas, ela quem venha ao encontro de quem a quer por perto. Pode ser que seu lugar de descanso seja o de dentro, bem dentro, esse que é o lugar reservado.  Para ela poder vir à tona, só é possível quando o que há de entulho for retirado. O entulho se acumula como paredes de pedras. Cada pedra poderia ser uma situação. O que fazer com pedras? Há pedras que são ostensivas, possuem brilho intenso e duram mais do que as pessoas, podem ser eternas, já ouvi falarem até que esse tipo são as melhores amigas, o que não creio. Tenho amigas que não são feitas de pedras, são maleáveis, não são duras. Há pedras que obstruem. Até dentro do corpo podem se for...

LUGAR COM PROPORÇÕES CONTINENTAIS

Tenho pensado sobre o que é pertencer a um lugar. Sei ser do lugar em que nasci, tem sido assim quando me perguntam de onde eu sou, mas sem sentir ser daí. Saí de lá tão pequena, sem memória, sem nada familiar. Também sei que não sou de onde cresci. Não me identificava com o modo de ser do lugar, creio que nem ele comigo, e hoje entendo o porquê. Escolhi ser de outro jeito. Não sei se sou de onde vivi a pouco. Foi onde senti estar no lugar certo e na hora certa. Mas, esse tempo passou, pois chegou a hora de estar em outro.  Há diferença entre ser Errante e ser Peregrino. Parece-me que o errante busca e não encontra lugar, está por se sentir sempre desconfortável. O peregrino, tenho impressão, sabe que são tantos os lugares possíveis de se transitar que não permanece em um único. Há pessoas que têm muito espaço dentro de si, cabem muitos lugares. Talvez, lugar tenha mais a ver com identidade a que eu imaginava. Será que somos onde estamos? É possível que ao menos em parte, ...

CORAÇÃO: TÃO FALADO E POUCO COMPREENDIDO

"Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados".  Fazer aos outros o que se deseja que seja feito consigo é pedagógico. Penso que tudo que é verdadeiramente pedagógico é feito a partir do Amor. Assim se ensina como se deve fazer, e desperta a muitos, atentando para nossa condição do humano, uma mesma condição, a de necessidade. O que me faz lembrar que é bastante comum nos conectarmos em tempo de necessidade. Nesse tempo oferecemos pouca resistência, e nos deixamos ser lembrados de nossa condição. Pena que alguns não a podem reconhecer, nem nesse tempo e nem em tempo algum, pois não querem ser iguais, negam a própria condição. Não querem depender, querem ser melhores, piores nunca! Isso é uma raiz que faz crescer uma árvore sem nenhum fruto, nem graça. Nenhuma compaixão, tampouco Amor. Já senti que seja assim. De fato, a necessidade nos nivela, faz reconhecer.  Ao sentir sobre isso, confesso que consigo entende...

AINDA SOBRE O TEMPO

Na perspectiva do tempo, o nascer não é o início, nem o morrer é o seu fim.  Platão escreveu a respeito da natureza do tempo e do dia de sua criação, escreveu de um jeito bonito, um tempo tão majestoso: "Então,  [o Demiurgo]  pensou  em construir uma imagem móvel da eternidade, e,  quando ordenou o céu, construiu, a partir da eternidade,  que permanece uma unidade, uma imagem eterna  que avança de acordo com o número; é aquilo a que  chamamos tempo." ( Timeu, 37 d .).   Não sei você, mas eu gosto de ler livros que falam sobre quem o tempo é. Pois, se não souber como ele é, como poderia saber contá-lo e saber como gastar meus dias e de que forma traçá-los. Penso que por estarmos sob o domínio do tempo convém aprender a separar o que é precioso do que é vil, pois gastar o tempo com coisas vis é desperdiçá-lo. E como todo mundo já sabe, o tempo não anda pra trás. Ou talvez ande, mas até onde sei, não nos leva consigo quando assim se moviment...

O TEMPO SEM RELÓGIO

Já viu e ouviu alguém contando uma história, e ao perguntar quando o conto ocorreu, achando que teria acontecido a pouco, esse alguém diz que se passou faz 40, 50 anos ou mais? O Tempo é mesmo relativo, parece até que tem 'temperamento'; bastante instável por sinal. Por vezes dizemos: "Tempos difíceis", "bons tempos", "tempo que não passa", "tempo que se esvai", "tempo generoso", "tempo ruim", e por certo que há outros. Tive essa sensação de forma peculiar ao ler um conto descrito no Dublinenses , de J. Joyce.  Ele tem um jeito de contar que gosto de ouvir. Conta coisas que acontecem em todos os tempos e em todo lugar, não só em Dublin. Parecia estar falando de algo que aconteceu no agora, e descreve como criança, sem dizer se o que se passou foi bom ou ruim, só foi.  Espontâneo pensar que os seres humanos não cabem no tempo, quer ele tenha temperamento ou não. Ou o outro extremo, estão presos nele, sem que se poss...

CONEXÕES E VIOLAÇÕES

Escrevi em algum lugar, que não me lembro onde, que prefiro o gato de Schrödinger a que o cachorro de Pavlov, e faço essa escolha novamente, agora com maior consciência. Ainda não entendemos as implicações mais profundas que possam nos dar pistas do que é de fato o real, e me interessa saber.  Talvez o real tenha a ver com a escolha de um ponto de partida, pois pode ter muitos do real espalhados por aí, sem que vejamos.  Como, por exemplo, na experiência imaginária do gato de Schrödinger, ele poderia estar vivo e morto ao mesmo tempo, em realidades justapostas. O curioso é perceber que quem entrelaça a realidade nessa experiência mental é o observador consciente,  ao conectar-se com o gato,  ao olhar para ele, e demonstrar interesse em ver se estará vivo ou morto. Acredito que o olhar cria realidades. As mentes criam. O interesse impulsiona. E o aproximar-se em pensamento estabelece uma conexão. Mudando um pouco de assunto, por vezes me pergunto, porque tenho d...

A QUESTÃO DA IDENTIDADE

Por um tempo, e num tempo que ficou pra trás, passei a me perguntar, de repente, assim mesmo, de um dia para o outro: Se tenho Identidade sou idêntica ... Idêntica a quem? ... Naquele tempo do atrás, não achei resposta, e  um pouco mais adiante  passei a perguntar de novo.  Já ouvia a Filosofia dizer, que cada qual é aquilo que é. Mas, saber que é não me parecia o suficiente, a questão era saber o que se é. Aquele alemão de que falei, o inteligente e famoso, Leibniz, tocou nesse assunto, e escreveu: "Tudo aquilo que é é; e: É impossível que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo".  (Ensaio, I, 1, 4) Sabe; por mais que eu simpatize com esse senhor e o julgue magnânimo, essa sua definição não me ajudou muito, ao menos não para saber o que queria.  Não serve dizer que o ente é ente, isso é demasiado tautológico. Pois, como se sabe, do que é tautológico não se tira novidade alguma, e eu queria aprender. Com Baumgarten, um outro alemão, encontrei uma pista: ...